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Um Abarno em Londres
22/11/2002
E aí familia Abarno... quem lhes escreve é o Luiz Eduardo, filho da tia Ana e Lula... estou passando uma temporada aqui em Londres com uns amigos meus e estou vivendo umas das maiores experiencias de minha vida...
Antes de vir para cá, viajei um pouco pela Europa de mochila com um amigo. Fomos à Dinamarca, Holanda, Alemanha, Rep. Tcheca e Espanha... visitamos lugares magnificos e passamos por situações das mais inusitadas, entre elas a enchente de Praga... chegamos a ser expulsos do hotel às 4 da manha porque a água ia inundar tudo... coisa de cinema... os tchecos gritando pelo corredor, gente de pijama rolando pela escada, marido xingando a mulher chorando... e nós de ressaca, ainda meio zureta achando tudo uma maravilha...
Sei que nosso contato é meio restrito... coisas da vida... mas todos sabemos o quão grandiosa é nosssa familia e da tenacidade do laço que nos une... e aqui tudo isso se torna mais forte e intenso... percebe-se que a vida é muito mais simples do que pensamos e que muitas vezes vemos montanhas onde existem apenas colinas...
Bom, o que se faz por aqui é trabalhar bastante, curtir a vida e conhecer pessoas novas... Agora estou trabalhando de barman em um centro de convenções, fazendo drinks, ganhando gorjeta e me divertindo... é sempre uma gandaia o trampo pois trabalho com um nepales, duas russas e uns brazucas... é uma zorra.... é muito ser pago pra se divertir.. claro que tem a parte dura de, as vezes, ficar 13 horas atrás do balcão e fazer trabalho pesado : carregar caixas, pegar gelo, etc... mas tudo faz parte...
Outra coisa que se faz aqui, e muito bem, em festa... nunca vi gente tao festeira na minha vida... supera até os Abarnos... e bebem que nem bixo... antes são tudo uns branquelos com cara de santo de terno e gravata... bota umas doses no corpinho e viram uns animaisl beberrões...
Minha namorada chega no inicio de dezembro para passar as festas de fim de ano comigo e para darmos uma viajada... vamos a Roma e Paris... vai ser ótimo mostrar para uma pessoa tao importante um pouco do que vivi aqui e o valor que tudo isso teve pra mim...
Tche, no mais, era isso, vou mandar mails mais seguidamente agora que tenho os enderecos de voces...
Um forte abraço,
Abarno.
Luiz Eduardo Abarno da
Costa
luizlondres@hotmail.com
24/11/2002
Simplicidade do Bem
Muitas vezes em nossas vidas deixamos de ver as coisas porque nos privamos daquilo que determinada situação, pessoa ou acontecimento quer, realmente, nos mostrar... muitas vezes, devido a uma entre-safra de consciência, perdemos, involuntariamente, o que poderia se tornar um momento mágico de nossas vidas... uma realização singular de nossos sentimentos e de todas nossas expectativas de vida. Não nos sentimos frustrados, não nos sentimos derrotados, tão pouco com a sensação de perda... o que se passa é que apenas deixamos de acrescentar algo para nossa vida, para nossa alma... e o que importa disso é que não se trata, repito, de uma atitude deliberada, mas sim um lapso - não erro - um lapso que não nos permite enxergar algo de tamanha valia: o autoconhecimento.
Esbarramos, seguidamente, em nós mesmos, em palavras que não sabemos porque as dizemos, em atitudes sobre as quais não refletimos o necessario... enfim, temos a vazão de emoção estancada pela complicação de um pensamento vazio, vazio de algo que devemos preservar como valor primordial: o bem.
Fazer o bem pode se tornar algo tão simples, tão singelo, mas ao mesmo tempo algo tão significativo, tão cativante, que o fazemos de forma natural e espontânea... de forma simples. Podemos, algumas vezes, dizer coisas que ferem alguem, que interferem em alguem, sem a intenção de faze-lo. O que queremos, na realidade, é exatamente o contrario do que se pensa, o inverso do imaginado por essa pessoa... queremos que ela se sinta à vontade... se sinta confortavel... e isso só se alcança depois de muita reflexão, introspecção e uma profusão mental tao intensa, que nos permita perceber o quão simples podem se tornar as coisas mais evidentes de nossas vidas... e uma delas é o bem... o bem não só como bem-estar, mas tambem o bem-querer, o bem bem-dizer, o bem-fazer, o "bem"-humor... o bem...
Falou-se em humor... pois o humor não é um estado de espirito, mas uma visão de mundo... uma visão de mundo que temos justamente por causa de como guiamos nosso dia-a-dia, de como somos em um mundo muitas vezes atroz, mas por isso mesmo, valioso. E ai reside, creio eu, mais um viés de simplicidade, mais uma feição da singularidade de nossas vidas: percepção... percepção de como podem ser muito mais simples nossos afazeres, nossos conflitos, nossos anseios, nossos prazeres. Prazer é algo que sempre buscamos, mesmo incoscientemente... procuramos nos satisfazer, nos agradar, mas como produto da natureza humana.
Esses são mais alguns dos presentes que ganhei depois de já ter o maior de todos, que é a vida. São pensamentos, ideias e criações resultantes de toda uma vida que ainda tem muito a ver, a aprender e crescer... e isso é o melhor de tudo... saber que o que é bom, pode melhorar... e só depende de uma unica pessoa: voce mesmo.
Abarno, Londres, novembro de 2002.
Luiz Eduardo Abarno da
Costa
luizlondres@hotmail.com
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Houve uma vez um verão,
plagiando o título do filme, em que eu despertava para o mundo adulto.
Tinha onze ou doze anos e a rua Marabá, em Capão da Canoa ficou
gravada em minhas lembranças.
A casa era cheia, tinha o cheiro bom da comida da Vó Morena e o sanduíche
do Vô Abarno, no capricho; tinha a presença dos tios, jovens, com
seus charmes, com suas alegrias, com seus amigos. Eu me sentia estranha, com
os sentimentos confusos, brotando todos com intensidade e ao mesmo tempo suaves
e doces. Fica forte o som das músicas, que eu ouvia repetidas vezes.
Músicas francesas na voz linda de Charles Aznavour que, hoje, estou ouvindo
e que me inspirou para escrever sobre tudo isso.
É confirmação das vidas múltiplas que vivenciamos.
A saudade que eu sentia e ainda sinto hoje de um passado francês inesquecível...
e distante...
Que c'est Triste Venise, Et Pourtant, La Boheme, La Mamma eram as músicas...
Lembro do tio Jorge, com seu sorriso, olhando para mim e dizendo que era "muito
velha", assim como ele, por gostar dessas músicas.
Eram churrascos, eram reveillons com muitas canções. Muita alegria.
E aquelas tardes em que dançávamos o "twist" guiados
pela tia Ana, sempre tão linda, tão cheia de vida. Era maravilhoso!
Consigo sentir a presença de todos ...
Como é bom, hoje, entender tão bem tudo o que eu sentia então.
Somos espíritos eternos, viajores que ancoramos em muitos portos, mas
que vivemos o amor e esse é eterno a nos iluminar o caminho. Obrigada,
meu Deus.
Anete Abarno
18/06/97